O Planeta dos Alquimistas - O Segredo do Elixir da Vida Sem Fim
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
O Planeta dos Alquimistas
O Segredo do Elixir da Vida Sem Fim
Astronauta terrestre, único sobrevivente de sua nave, encontra-se perdido num planeta distante e habitado. Lá ele conhece o amor completo. Enamora-se de uma jovem habitante daquele planeta. Todavia, surge uma grande frustração: aqueles habitantes têm vida e juventude infindáveis enquanto que ele, o terrestre, é um simples mortal. Ele faz de tudo para encontrar a fórmula do elixir que propicia vida e juventude infindáveis aos habitantes. Afinal a consegue e a traz à Terra. Aqui chegando tem uma enorme surpresa: a fórmula já existia na Terra; simplesmente não fora utilizada!
Literatura brasileira:
Busca de si mesmo, Crescimento Pessoal, Busca da eternidade, Ficção, Realidades e Romance, Analogia da História, Comentário Bíblico, Autoajuda.
VÍDEO COM NARRAÇÃO DO LIVRO DE 80 PÁGINAS : 02:06:21 - PARA OUVIR ACESSE:
https://www.youtube.com/watch?v=NMPWuHVhJn4
Direitos Autorais Registrados do Autor e Narrador NILLO GALLINDO.
Em 1993, publicado pela EDP - Editora Didática Paulista como
Livro Paradidático distribuído nas Escolas do Estado de São Paulo.
COM A CAPA ABAIXO DISTRIBUÍDO EM PAPEL e E-book pelo clubedeautores.com.br
CAPÍTULO 1
A nave espacial terrestre pousou. Era uma das
mais avançadas. Cumprira uma viagem de trinta
anos de duração. O pouso suave foi num belo e
distante planeta habitado que girava em torno de
outro sol. Logo estava cercada por muitos
habitantes que presenciaram a descida e
correram até ela, curiosos. Hesitaram por alguns
instantes. Mantinham certa distância. A porta não
se abria. Como a demora persistia, os habitantes
tomaram a iniciativa e eles próprios abriram a
porta por fora. Esperaram um pouco. Como
ninguém descia da nave, eles entraram.
Encontraram os astronautas em seus postos,
porém, inertes.
- Estão mortos? Chegaram àquele estado
físico a que chegam todos os animais irracionais
de nosso planeta? - indagou o habitante Kilvan,
olhando para seus companheiros.
Os astronautas estavam sem os
capacetes.
- Mortos mesmo - concluíram os outros.
- Serão também animais irracionais? -
perguntou um dos habitantes.
- Dificilmente - retrucou Kilvan -, animais
irracionais nunca construiriam um veículo como
este. Vejam seus rostos como se parecem com
os nossos!
- Se são racionais, por que morreram? -
outro queria saber. Estavam intrigados.
De repente, com um rangido uma porta se
abriu dentro da nave. Havia um compartimento
interno. Dele - para espanto dos habitantes - saiu
um astronauta cambaleando. Estava com o
capacete. Dirigiu-se até perto dos habitantes e
caiu. Perplexos, os habitantes se aproximaram
dele. Após tentarem muito, conseguiram
desatarraxar o capacete. O rosto ficou livre.
Em contato com o ar puro da atmosfera,
que enchia a nave, o astronauta passou a respirálo
Pouco a pouco, recobrou os sentidos.
- Está vivo! - gritou Kilvan, alegremente,
para os outros. Vasculharam toda a nave e não
encontraram mais ninguém.
- Meu nome é James. Onde estou? Quem
são vocês? - atordoado, perguntou o astronauta.
Estava tão curioso quanto os habitantes.
- James...é um nome interessante. - Disse
Kilvan ajudando o astronauta a se levantar.
O astronauta continuou:
- Como é que vocês me compreendem?
Entendem e falam minha língua? Terá nossa
nave regressado à Terra?
- Terra! - pronunciou Kilvan - Então o lugar
de onde vocês vieram, chama-se Terra?
- Terra. - confirmou o astronauta - Voltei à
Terra após trinta anos de viagem pelo espaço?
Só pode ser, porque nós e vocês somos,
fisicamente, muito parecidos, em tudo.
Semelhantes! Até nos comunicamos na mesma
língua - o astronauta corria os olhos por todos os
habitantes e os analisava.
- Não, James. Não está na Terra. Chegou
ao planeta Éden.
- Éden? Após três dezenas de anos de
jornada espacial! - murmurou James.
Foi aí que voltou sua vista para os
astronautas mortos e deu-se conta da situação.
James, aturdido, sacudia um por um como que
num esforço desesperado para revivê-los.
Chorava muito. Balbuciou:
- Pai, mãe. - mexia também com os outros
e chamava-os pelos nomes abraçando-os junto
ao peito.
- Por que foi acontecer isso? Como?
Agora, que fazer? Compreendendo a situação
irreversível, voltou-se para os habitantes de Éden
que acompanhavam seus movimentos, curiosos.
- Vamos fazer o que tem que ser feito.
- disse James a Kilvan, enxugando as
lágrimas. Os olhos estavam vermelhos e a face
triste.
- O que tem que ser feito? - os demais do
grupo aguardavam a resposta de James à
pergunta que Kilvan fizera. Não entendiam a frase
de James.
James reagiu à pergunta.
- Como me perguntam: o que tem que ser
feito? Ora, ora. Têm que ser enterrados!
Os habitantes se entreolharam e
permaneceram calados, atentos ao que James
dizia.
- Como é que vocês agem aqui neste
planeta quando um habitante morre?
Kilvan aproximou-se bem de James com um olhar
sério e indagou
- Vocês da Terra, os desse veículo... são
racionais?
- Totalmente racionais. Por quê?
Kilvan não compreendia então. Nenhum
daquele grupo de habitantes de Éden entendia.
Afinal, eles estavam com milhões de anos de
idade e nunca conheceram a morte.2
CAPÍTULO 2
Os corpos foram retirados da nave.
Era o dia seguinte.
- Onde é o cemitério? - James precisava
saber. Insistia.
- Cemitério? Não conhecemos o significado
dessa palavra, James.
- Está bem, Kilvan. Está bem. Tantas
coisas absurdas me disseram durante a noite
toda: têm milhões de anos. São racionais como
nós da Terra. Ninguém nunca morreu em Éden.
Vou acreditar. Acredito mesmo. Acontece que
nós, da Terra, apesar de racionais, morremos.
Entendem? Meus companheiros morreram,
mesmo sendo racionais como vocês.
James falava com Kilvan e, de vez em
quando, girava de um lado para outro, dirigindose
a todo o grupo. Continuou:
- Entretanto, é de suma importância
enterrar esses terrestres, principalmente porque
vocês não têm nenhum método para esse caso.
Tem que ser feito. É assim!
James conseguiu convencer Kilvan e seus
companheiros da necessidade do sepultamento.
O enterro ocorreu sob o olhar atento de cada
membro do grupo ali presente. Era uma novidade
para os habitantes de Éden. James mostrou a
Kilvan como devia ser: tantas covas quantos
fossem o número de astronautas mortos. Umas
próximas das outras.
Kilvan e seus companheiros executaram
tudo como James instruiu. Aquele número de
astronautas mortos formou o primeiro, único,
pequeno cemitério de Éden. Antes de deixarem o
lugar para voltarem às moradias, os habitantes de
Éden, sem entender muita coisa, presenciaram
uma cena: James, cabisbaixo e chorando, colheu
algumas flores e as depositou sobre cada túmulo.
James sabia que chorar, alivia. Lembrou-se que
até Jesus, O Filho de Deus, quando esteve na
Terra e presenciou a morte de seu amigo Lázaro,
chorou. James estava sentindo a “dor do nunca
mais”.
CAPÍTULO 3
À noite, ao invés de dormir, James
procurava descobrir por que havia sobrevivido e
seus companheiros não. Lembrou-se: Todos
estavam na grande cabine de comando da nave.
Ela estava prestes a entrar na atmosfera superior
do planeta. Faltava pouco para iniciarem o pouso.
Todos os instrumentos de bordo indicavam que
as composições químicas do ar no solo eram
idênticas às da Terra. Mesmo assim, por
segurança, no pouso, todos teriam que colocar os
capacetes. James fora o primeiro a colocar.
Colocou-o e foi, rapidamente, a outro
compartimento da nave verificar o estado de
alguns componentes eletrônicos. Deixou seus
companheiros. Até então eles ainda não haviam
colocado os capacetes. Mas iriam fazê-lo.
Enquanto isso, quando a nave ingressou
na atmosfera superior do planeta, pouco antes de
iniciar o pouso, houve um pequeno rompimento
na estrutura, devido ao violento atrito dela com a
atmosfera. Provocou-se uma súbita
despressurização - total fuga de ar interno - da
cabine de comando onde estava o restante dos
astronautas. A nave, que estava a grande altitude,
prosseguiu normalmente para o pouso. Era
programada para isso por computadores. Porém,
os astronautas, que estavam na cabine de
comando - colhidos de surpresa sem os
capacetes, repentinamente morreram. Assim, só
ele sobrevivera. Pensou e concluiu: “Foi um
imprevisto, pois o destino não existe. Nós é que
devemos dirigir o rumo de nossas vidas da melhor
maneira possível. Se existisse o destino, não
seria preciso olhar semáforos nem ir a médicos, já
que tudo estaria destinado independente de
nossos cuidados. É como diz aquela frase do
Eclesiastes da Terra: o imprevisto pode ocorrer a
todos.”
CAPÍTULO 4
Haviam passado alguns dias.
CAPÍTULO 4
Haviam passado alguns dias.
Apesar dos convites cordiais dos
habitantes de Éden, James preferiu ficar residindo
na nave. Kilvan e seus companheiros o visitavam
constantemente. Levavam água e alimentos para
ele. James também muitas vezes saía da nave e,
junto com Kilvan, visitava vários lugares do Éden.
Foi num desses passeios que conheceu
uma das belas mulheres de Éden, Lyvia. Se
enamorou da moça na primeira vez que a viu. Na
realidade ela era seu primeiro amor, pois ele
partira da Terra quando tinha 15 anos de idade.
Certo dia, passeando, numa conversa com Kilvan,
James resolveu abordar um assunto que o
incomodava.
- Quer dizer que é verdade? Vocês não
morrem mesmo? - James tinha um jeito irônico,
porém respeitoso na pergunta a Kilvan.
- Não. Nós não passamos por esse estado
que os terrestres chamam de morte. Enfim, não
morremos. Somos racionais, e racionais não
morrem. Os irracionais, estes, sim. É assim em
nosso planeta. - Kilvan era categórico.
- E vocês têm milhões de anos de idade?
- Correto, milhões. Nem nos preocupamos
em contá-los.
- Sempre em pleno vigor e juventude?
- Outra vez, correto.
- Então vou chamar o planeta de vocês por
outro nome, posso?
Kilvan arregalou os olhos para James.
- Que outro nome?
- Para mim, James, o astronauta terrestre
perdido, sobrevivente em Éden, este mundo
doravante será chamado por mim de: O
PLANETA DOS ALQUIMISTAS.
- Por que alquimistas? O que são
alquimistas? - Kilvan queria entender o
comportamento de James. O astronauta explicou.
- A História da humanidade na Terra
passou por vários períodos. Dois deles, muito
próximos, chamaram-se Idade Média e
Renascença. Naqueles tempos, viveram homens
estudiosos que se dedicaram à uma ciência
especial. Aqueles estudiosos procuravam
transformar metais comuns em ouro. A fórmula
buscada chamava-se Pedra Filosofal. Kilvan
ouvia atentamente. James continuou:
- Mas, esses homens procuravam algo
mais além do ouro. Buscavam descobrir um elixir
fantástico que possibilitasse aos humanos terem
vida longa, com vigor físico e juventude
permanente. Essa ciência chamava-se Alquimia.
Seus praticantes ou estudiosos tinham o nome de
alquimistas. Eram os químicos da Idade Média e
Renascença. Procuravam muito descobrir o que
vocês têm aqui no mundo de Éden! Compreende
agora por que quero chamá-los pelo nome de
Planeta dos Alquimistas?
- Perfeitamente. - Kilvan pensou um pouco
antes de perguntar:
- Os alquimistas descobriram a tão
sonhada fórmula para produzir ouro?
- Não. Tudo indica que não.
- E a vida longa com plena juventude e
vigor permanente, conseguiram o elixir, a
fórmula?
- Também não. Como viu, nós morremos.
Meus companheiros, os astronautas...você viu,
Kilvan. James se entristecia ao falar sobre
os astronautas mortos.
- Compreendo. - Afirmou Kilvan,
procurando consolar James. - Diga-me, por que
será que os alquimistas, além do ouro, queriam
vida longa e juventude? Já pensou nisso?
- Acho que é porque todos gostam de
viver muito. Nunca morrer, se fosse possível.
Acredito que os terrestres dariam todo o ouro do
mundo para viver para sempre com pleno vigor e
juventude.
- Também penso assim - concordou Kilvan
- de nada valeria todo o ouro produzido em todas
as galáxias se não houvesse vida.
James movimentou a cabeça,
concordando. A conversa foi interrompida pelos
gritos alegres e risos de um grupo de crianças
que passaram correndo e brincando. Uma delas
chegou bem pertinho do astronauta. As outras
ficaram rindo e um pouquinho acanhadas a
alguns metros de distância. A menininha se
achegou mais. James admirou a graciosidade da
pequenina. Aqueles trejeitos, o rostinho mimoso.
A boquinha parecida a um enfeite. E os dentinhos
quando sorria! Ela disse na linguagem infantil:
- Olá, James. Como vai?
- Você sabe o meu nome? - James
agachou-se para chegar à altura da pequenina.
- Sei, todos sabem.
- Então eu estou importante. Até os
edenitas pequenos, como você, me conhecem! -
James riu. A pequenina riu também. Os olhos da
menina brilhavam de curiosidade. As outras
crianças chegaram mais perto. James a pegou
nos braços.
- James, o que é “ser importante”?
- Ser...importante?
- Sim, você falou “estou importante!”.
Kilvan interrompeu e disse a James:
- Responda a pergunta da pequenina. Eu
também quero saber.
E todas as crianças insistiram com o
astronauta para que explicasse o que significava
a frase. James voltou-se para Kilvan:
- Você também quer saber? Não sabe?
- Se soubesse não perguntaria.
- James olhou para todo o grupo de
crianças. Voltou a atenção para a menininha em
seus braços:
- Minha querida. Meu querido punhadinho
de amor puro. Sementinha do bem, plantada nas
imensas profundezas deste Universo do dono do
amor, vou dizer. Preste bem atenção.
Todas as crianças se achegaram a James
para ouvir a explicação.
- “Ser importante”, minha querida, é algo
que nunca mais eu quero pensar em ser. Eu já
não gostava muito da idéia de “ser importante”,
mas, agora, diante da pureza mental de vocês
tirei isso de minha mente e coração. Esqueçam
aquilo que eu disse.
- Posso beijá-lo? - a garotinha perguntou
sorrindo.
- Com uma condição. - James apertou o
narizinho dela - só deixo uma pessoa me beijar
quando sei o nome dela.
- Me chamo Letícia... me chamam também
de Lelê.
- Ah, que nome lindo, agora pode! Tenho
certeza de que todos os seus amiguinhos aqui
tem nomes bonitos também...quero um beijo de
cada um. Todas as crianças se embolaram no
pescoço de James. E perguntavam:
- Você nos leva para passear na sua casa
que anda pelo céu?
Letícia perguntou:
- Lá no céu, onde você mora, tem crianças
iguais a nós?
A pergunta fez James engasgar-se. A voz
quase não saía. Lembrou-se das crianças da
Terra. “Iguais às edenitas!?” - pensou. - Uma
lágrima rolou. Letícia perguntou:
- Você está chorando, James. - a menina
levou o dedinho para enxugar a lágrima do
astronauta.
- Não. É que um cisco entrou em meus
olhos. O vento está forte hoje. Sabe, meu bem,
seria bom você ir brincar com os seus
amiguinhos. Eu preciso continuar conversando
com o meu amigo Kilvan...
As crianças se foram, tão alegres quanto
chegaram. Pareciam um bando de pássaros
voando nas asas da liberdade e da felicidade.
James perguntou a Kilvan:
- Letícia também viverá para sempre em
eterna juventude?
- Ela e todas as crianças de Éden.
- Kilvan, vocês, para conseguirem isso
devem ser os verdadeiros alquimistas e ter
alguma fórmula secreta. Mostre-me a fórmula do
elixir que vocês descobriram.
Kilvan sorriu e colocando a mão no ombro
de James comentou:
- Então você quer aprender nossa fórmula!
Durante meses, James percorreu o Planeta
dos Alquimistas com Kilvan. Notou a beleza e a
harmonia por todos os lugares por que passava.
O visual era fabuloso. Parecia um dos mais lindos
sonhos. Seus olhos nunca viram coisa igual.
Equilíbrio ecológico perfeito. Os lagos pareciam
de cristal, devido à transparência das águas. Rios
límpidos, cheios de peixes. Fontes borbulhantes.
Cachoeiras jamais vistas, parecendo nuvens de
espuma descendo do alto. Montanhas formosas,
cobertas de gelo, neve ou vegetações. Árvores de
todos os tipos, espécies e tamanhos. Variedade
completa. Frondosas, floridas. Frutos em
abundância. Florestas diversas. Flora rica.
Encantadora. Planícies, prados, vales, encostas e
campos férteis. Solo produtivo. Fauna inigualável.
Pássaros das mais ricas plumagens, de todo tipo
e tamanho, que cantavam constantemente. Os
belos tons dos cantos dos pássaros enchiam o
planeta. Mamíferos de toda espécie e variedade.
Toda a vida animal irracional era amistosa para
com os habitantes racionais. Os mares eram
limpos e majestosos, imponentes. Abrigavam todo
tipo possível de vida marinha. Um planeta
pululante de vida em geral. Nenhuma poluição por
menor que fosse. Habitantes irmanados numa
confraternização global. UM PARAÍSO NO
ESPAÇO, ENTRE AS ESTRELAS! Entretanto,
mesmo diante de tanta beleza e harmonia, um
fato causava curiosidade a James. Entre o local
onde estava pousada a nave e a moradia de
Kilvan, havia um lugar no caminho em que estava
escrito: “Área Proibida”! Por que “proibida”, se
tudo era liberdade no Planeta? Várias vezes, o
astronauta tentou entrar na área, porém Kilvan
nunca permitiu. Somente repetia:
- James, a nós não se permite dizer nada
sobre este local. Apenas sabe-se que é proibida a
entrada.
- Tenho certeza de que é o lugar onde fica
o laboratório onde se produz o elixir da vida sem
fim. É isso, Kilvan. Por isso não me permite
entrar. Não quer que eu descubra o segredo dos
alquimistas!
- Pense o que quiser - dizia Kilvan
amavelmente - mas, meu amigo, é proibido
penetrar nesta área. Não tente mais.
James, após ter conhecido o planeta Éden,
escrevia em sua nave, às noites, anotações sobre
tudo o que vira. Intitulou-as de: REGISTROS
SOBRE O PLANETA DOS ALQUIMISTAS.
CAPÍTULO 5
Os registros do astronauta eram de tanto
valor que, se os terrestres viessem a lê-los,
ficariam maravilhados e poderiam mudar tudo na
Terra, para bem melhor. Ele escreveu página por
página:
Eu, James o astronauta vi:
O Planeta dos Alquimistas é habitado por
bilhões de pessoas, sendo homens, mulheres e
crianças. Todos estes habitantes são da espécie
RACIONAL. Eles têm a bondade como modo de
vida.
Estão espalhados por todo o planeta de
forma ordeira e proporcional em todos os
continentes.
Falam uma só língua que é a todos
pertinente. Há uma só Constituição para todo o
planeta. Quando a li fiquei muito surpreso, porque
é a mais curta que já vi. Eu a comparei com
todas as que existem na Terra. Mas nenhuma
delas supera esta que é insubstituível. Ela é total
e abrangente e só tem duas palavras:
“CUMPRA-SE AMOR”
Depois da notável Constituição, o fator
mais importante do planeta, que notei, é o valor e
o carinho que dão ao sistema educacional. A
educação aqui é a base e o ponto de partida para
tudo. Ninguém fica sem passar pelo currículo da
educação escolar. Não há exceção. É dessa
maneira que todos aprendem a viver bem e
responsavelmente na comunidade.
Um princípio bem profundo é posto em
prática em suas vidas. Percebi que é algo que
também foi ensinado na Terra. É um princípio de
Salomão e que poucos terrestres puseram em
uso em suas vidas. Mas aqui é usado em toda
sua plenitude. Diz:
“... feliz é o homem que acha sabedoria... e
o que adquire entendimento... pois é melhor do
que o valor da prata e do próprio ouro.”
Foi assim que, aqui, entendi que eles
sabem que o ouro tem um valor relativo.
Aprenderam que o ouro sem a vida não é nada,
mas a vida, mesmo sem ouro, é tudo!
Eles não me disseram, mas eu desconfio
de algo. Em aulas que são secretas, às quais
não pude assistir, desconfio fortemente que,
nelas, é ensinada a fórmula do elixir que os
permite existir com vida infindável em eterna
juventude. Da boca de todo professor ou qualquer
instrutor, emana o ensinamento do texto
constitucional: “CUMPRA-SE AMOR”
Todos os habitantes têm propriedades.
São de tamanhos suficientes para a produção dos
alimentos e ainda sobram no planeta espaços
normais para rios, lagos, florestas e todas as
outras denominações que sejam necessárias.
Cada um produz o que preferir. Trabalha
no que gostar e quiser. O que um não produz ou
não faz, é feito ou produzido por outro. Assim,
nada falta e há sempre muitos fazendo o que se
necessita. Os negócios fluem normalmente. A
moeda é, simplesmente, a troca de produtos ou
serviços.
O planeta é muito fértil e a produção é
abundante.
Quando alguém não tem algo consegue de
outro.
Nada falta a ninguém. Há felicidade
completa.
É uma economia que me deixou pasmado.
Toda pessoa é certo tipo de produtor e,
consequentemente, consumidor.
Não vi um edenita lesado, nem
prejudicado. Conseguem viver e conviver muito
bem. Mas há uma grande razão para isso. Em
todos os assuntos, até nos econômicos, na
entrada ou dentro de qualquer estabelecimento
ou mercado, seja onde for, há sempre um grande
letreiro escrito. Nele é visível o texto
constitucional:
“CUMPRA-SE AMOR”
As locomoções, por todo o planeta, são
muito eficientes e não produzem nenhuma
poluição. É verdade que não são tão velozes.
Mas, para que seriam, se os eternos não têm
pressa?
Observei um fato incrível. Eles não têm,
nem desenvolveram uma ciência política. É
inacreditável. Sei que será difícil para um terrestre
aceitar.
Mas é verídico. Aqui não existe a política;
por isso, ninguém a pratica.
Nunca, em tempo algum, houve
qualquer tipo de império.
Não é difícil de crer?
Nunca existiram chamados pequenos,
grandes ou potências. Sabem por que? NÃO
EXISTEM FRONTEIRAS. Não há nenhuma
divisão em países e nações que sejam
estrangeiras. E tem muita lógica. Como ser
estrangeiro, se são habitantes num só planeta?
Outra coisa vi. Pensei: estarei sonhando?
Não há passaportes, alfândegas,
fiscalizações! Nenhum tipo de regime político.
Nenhum!
O preconceito não existe em nenhuma
área ou de qualquer espécie. Todos, pretos,
brancos, amarelos, vermelhos, vivem juntos,
amam-se, sentam-se no mesmo banco. Não há
nenhuma disputa. Em consequência, há paz geral
e isto sem nenhum tratado!
Não conhecem bandeira.
São regidos por princípios de vida
perfeitos. Só há uma designação ou
nacionalidade para qualquer um: tu és um
edenita, o povo é um só! Para homem, mulher ou
criança, de qualquer cor, o ensino é:
“CUMPRA-SE AMOR”
Agora, vejam a coisa mais curiosa,
prestem muita atenção.
Eles, como os terrestres, também têm um
LIVRO SAGRADO.
Mas imaginem o tamanho do livro! Não o
vi, mas dizem que tem uma só folha, ou seja:
duas páginas. Nada mais. E são duas páginas
pequenas, de assunto curto. Gente!, um “livro” de
duas páginas?! Eles dizem que são as suas
SAGRADAS ESCRITURAS. Nestas duas
páginas, só existem dois capítulos, o primeiro e o
segundo. E, tal “livro”, é válido para todo o
planeta! Não o vi e nem o li, mas dizem que cada
edenita têm cópia ou cópias dele. E por isso, eles,
neste mundo, têm uma só fé. Da mesma maneira
como não existem duas nações, ou dois povos,
também não há duas religiões. Não havendo
mais de uma nação, ou duas religiões diferentes,
nem flagrantes desigualdades econômicas, qual
foi o resultado de tudo?
Ora, Que beleza! QUE MODO RACIONAL
DE VIVER: NUNCA ACONTECEU UMA SÓ
GUERRA! E, assim, os racionais, verdadeiros,
produziram um mundo sem malfeitores, sem
conflitos, com segurança total. Como não existe a
violência nem qualquer dor, não existem
soldados, armas... para quê? A Constituição do
verdadeiramente racional é tão pequena, MAS
GOVERNA, apenas diz:
“CUMPRA-SE AMOR”
Relatarei agora em meus registros sobre as
festividades do povo.
Eles promovem muitas festas. Nos campos
e nas cidades.
Perceba um fato interessante. Como o
Livro Sagrado deles só tem uma folha, apenas
duas páginas com dois curtíssimos capítulos, nele
não deve estar escrito muita coisa. O relato deve
ser muito pequeno. Então, diferente da Terra,
aqui no Planeta dos Alquimistas, nunca nasceu
ou existiu um Moisés.
Claro que não. Para que haveria um líder
tal qual Moisés, se nunca existiu um país
chamado Egito? Nem o Egito e nem qualquer
outro país existiu, porque o planeta não se dividiu
regionalmente em países.
Como não houve Moisés, certamente, não
há Páscoa, pois a páscoa representa a saída dos
judeus da escravidão egípcia, liderada por
Moisés. Já que os habitantes aqui não morrem,
não há o dia de Finados. E, por dedução, não
precisaram de um Resgatador.
Então, por aqui não nasceu, não sofreu
torturado, e assassinado não morreu, JESUS
CRISTO, o Nosso Senhor! É óbvio, então: não há
um dia de Natal para comemorar.
Também não têm o costume de
festejar “Ano Novo” para que ele seja melhor que
o anterior. Não há necessidade, pois todos os
anos são sempre bons. Não há registro de ano
pior. Todos são excelentes.
Não há festas de “independência”, pois
neste planeta jamais alguém dominou de
qualquer forma seu semelhante. Nenhum povo
sofreu alguma interferência em sua liberdade.
Não existem aqui dois povos. O povo é um só! Só
são dependentes de:
“CUMPRA-SE AMOR”
Quando James, escrevendo seus relatos,
sentiu o bem que o amor produzira no Planeta
dos Alquimistas, lembrou-se da definição sobre o
amor que, certa vez, ouvira falar na Terra. Dizia a
definição de um grande apóstolo terrestre:
“Se eu falar em línguas de homens e de
anjos, mas não tiver amor, sou como um pedaço
de metal que soa ou como o sino que tine. E se
eu tiver o dom de profetizar e estiver familiarizado
com todos os segredos sagrados e com todo o
conhecimento, e se eu tiver toda a fé, de modo a
transplantar montanhas, mas não tiver amor,
nada sou. E se eu distribuísse toda a minha
fortuna para alimentar os pobres...mas não
tivesse amor, de nada me aproveitaria. O amor é
longânime e benigno. O amor não é ciumento,
não se gaba, não se enfuna, não se comporta
indecentemente, não procura os seus próprios
interesses, não fica encolerizado. Não leva em
conta o dano. Não se alegra com a injustiça, mas
alegra-se com a verdade. Suporta todas as
coisas, acredita todas as coisas, espera todas as
coisas, persevera em todas as coisas. O AMOR
NUNCA FALHA!”
James pensou, antes de continuar
escrevendo: “ É pena que, na Terra, o amor só
ficou na definição; poucos o praticaram”.
O astronauta continuou escrevendo:
Agora, passo a relatar em meus registros a
variedade da vida do Planeta dos Alquimistas.
Ela é repleta de diversas espécies do reino animal
e vegetal. Os vegetais nascem, vivem e morrem.
O mesmo acontece com as espécies do reino
animal, que são irracionais. Assim funciona o ciclo
ecológico. Mas eis a grande realidade fantástica,
você ficará estupefato: Os do reino animal,
denominados RACIONAIS, que são os homens,
as mulheres e as crianças, são diferentes no
sentido da existência. Nascem, crescem, tornamse
adultos jovens e, assim, permanecem por toda
a eternidade. A juventude é permanente. Aqui os
habitantes não adoecem. Eles não morrem
nunca. Não há cemitérios, nem crematórios.
Resumindo: aqui não há defunto! Não existem
coveiros. Esta profissão nem é imaginada. Vi a
prova disso quando tive a necessidade de
enterrar os astronautas mortos no pouso da nave.
Apenas eu sobrevivi. Os edenitas não entendiam
o fato de um racional morrer. Quando os animais
irracionais morrem aqui, quem cuida do assunto é
a ecologia. Não estavam preparados, não estão,
nem nunca estarão, para a morte de racionais. E
agora, alegria, mas não ria, é verdade: aqui não
há calvos. Nem dentaduras. Não existem
deficientes físicos de nenhum tipo. Todos têm
físicos privilegiados. Não há remédios nem a
ciência chamada medicina. Não há hospitais nem
médicos. Não usam nenhum medicamento, nem
mesmo como “vitamina”. Não há dentista,
pediatra, muito menos geriatra. Nenhum
psicólogo, nem psiquiatra. Isto porque, psiquiatria,
psicologia ou qualquer especialidade de
tratamento nessas áreas, seja qual for, a receita
do Planeta dos Alquimistas é uma só: CUMPRASE
AMOR. Não consegui ainda descobrir o que
possibilita isto a eles. Decidi levar a cabo uma
missão: vou tentar, por todos os meios,
desvendar por que são assim. Eles nem me
dizem, nem me mostram nada sobre algo que
desconfio muito. Eu acho que eles têm, que
desenvolveram desde seus primórdios, o mais
fantástico e maravilhoso elixir do Universo. Penso
que os alquimistas fabricam o elixir e o escondem
numa região misteriosa chamada Área Proibida,
onde a ninguém é permitido entrar. Minha
intenção é descobrir o elixir. Aprender a fórmula.
Testá-lo primeiramente em mim. Aí, vou levá-lo
para a Terra, para livrar tantos da agonia. Agonia
das doenças, do envelhecimento. Acabarei com a
maior frustração de todo ser humano, que é ver a
vida findar. Então, os humanos terão vida e
juventude permanentes. E acredito que, com tal
bebida maravilhosa, melhorarão suas mentes e
corações e se tornarão, verdadeiramente,
RACIONAIS. Bebendo do elixir, os terrestres
poderão viver, um dia, sob uma Constituição bem
simples e curta que apenas dirá: “CUMPRA-SE
AMOR”.
James continuou fazendo anotações em
seus registros. Há muito, desde que chegara ao
Éden, os meios de comunicação insistiam com
ele para dar uma entrevista reveladora sobre a
Terra. Sobre seus usos e costumes. Aproveitando
a confecção dos registros, anotou neles e enviou
uma carta para todos os órgãos noticiosos. A
mensagem que enviou, com autorização para que
fosse divulgada em todo o planeta, na íntegra, foi
esta
Prezado edenita,
Querido povo que me acolheu neste
hospitaleiro mundo. Quero agradecer pelo grande
amor demonstrado para comigo.
Eu vim da Terra. É um mundo
distante, um planeta longínquo, muito diferente,
em tudo, deste planeta de vocês.
Confesso, temeroso. Hoje, tantos
anos passados, eu não sei se a Terra ainda
existe. Se, como uma bela jóia azul, ainda,
passeia pelo espaço. Eu me pergunto muitas
vezes: será que meus irmãos terrestres, aquela
população sofrida do planeta, ainda existe?
Minha grande dúvida é se a ciência deles,
muito “avançada”, os levou a um excelente modo
de vida ou os dizimou sem clemência por meio de
armas fora de minha imaginação. Eles têm, cada
vez mais novas, armas assassinas para
destruição em massa. Lá na Terra, há algo
incrível para vocês, por desconhecerem
totalmente o assunto. Os terrestres, ao longo dos
milênios, desenvolveram uma ciência diferente
das outras. Ela, muitas vezes, tem efeito terrível e
é a raiz de quase todos os problemas. Chama-se
Política. Como uma árvore, a Política se divide
em muitos galhos. Tem várias formas e
denominações como, comunismo, socialismo,
anarquia, ditadura, democracia, monarquia e
muitas mais. São milhares as mudanças, as
reformas, as transformações dos sistemas,
sempre trocando-se uns pelos outros. Mas o
planeta sempre piora. E a Política é considerada
mesmo uma ciência humana porque, assim como
existem os cientistas físicos, químicos, também
existe o cientista político.
Uma vez inventada, e vinda do fundo do
poço do tempo, das origens do homem, depois,
espalhou-se contagiando a todos. É como se
fosse uma febre. Em todo o planeta, utilizam-se
grandes recursos para sua promoção.
Respeitadas as exceções, quando há
sucessões de humanos que saem por outros que
entram no poder, há muitas festas; é o tempo em
que as criancinhas recebem o maior número de
beijos na vida delas. Enquanto isso, outros
terrestres ouvem, escutam e enchem de
esperanças os corações. Quem é que não quer
um analgésico para sua dor? E visto que há
terrestres bem intencionados, que dedicam sua
vida à ciência política, e querem fazer o bem aos
que ouvem, eles prometem, e muito.
E o que acontece?
Ora, não se consegue amarrar um elefante
com uma linha fina de costura. O sistema do
planeta, em que o político bem intencionado vai
tentar agir, é como um elefante enlouquecido
ladeira abaixo. Quem o detém? Quem o
manobra?
E, por isso, quem esperou, confiou, gritou e
até brigou pela Política, passará mais alguns anos
sisudo, frustrado... esperando pela nova briga.
Por outra fantasia que virá. Novamente, terá que
amarrar o elefante com linha de costura.
O interessante, meus prezados edenitas, é
que, métodos tão conhecidos, nada novos,
enchem de alegria e de esperança, os povos. E
isso não é um fato localizado. Ocorre em toda a
Terra, em qualquer tipo de regime. O elefante
louco não está em um lugar, em um continente.
Ele desembesta pelo planeta inteiro. Em uns
lugares mais ativo; em outros, menos. Mas ele
age em todos os continentes. Não há camisa de
força que o segure. A Política está em todo o
planeta. Ela está atrás da “cortina de ferro”. Mas
existe também atrás das “persianas de plástico”.
Não há antídoto para ela. Sobrevive até onde não
se usa “cortinha” nenhuma. Muitas espécies do
meu belo planeta está em extinção. Mas a
espécie política aumenta cada vez mais. Domina
a Terra. E por isso a Terra é um planeta de tristes
contrastes.
Sendo a Terra rica de sul ao norte e de
leste a oeste, nossas criancinhas morrem de
fome! Milhões! Covas e valas recebem seus
corpinhos a todo instante. São vítimas indefesas
dos homens “adultos”, “fortes” que, dominando a
Terra, permitem e causam a morte dos
pequeninos e de demais inocentes. Quando não
morrem pela fome, é pela guerra. O dinheiro, os
humanos usam par suprir o armamento. Para
foguetes, balas, bombas e todo tipo de arma.
Tudo com a finalidade de separar fronteiras para
um extremo nacionalismo, para fomentar o ódio,
racismo. É algo louco, doentio. Funesto. Certa
vez, alguém inigualável viveu trinta e três anos na
Terra ensinando o bem, o amor e as regras do
bem-viver e ensinou uma bela oração, forma de
se pedir bençãos ao Criador, dizendo:... “ o pão
nosso de cada dia, nos daí hoje...” . Mas, na
prática, os liderados pelos poderosos inverteram
a oração para: “... canhão nosso de cada dia,
disparai hoje...!”. Como se cada um pedisse isso
rogando ao seu deus particular.
Ora, a criancinhas da Terra precisam,
não de canhão, mas de pão! Lá há os meus
queridos pequeninos branquinhos que sofrem em
muitos continentes. E os meus amados e
queridos pretinhos da África. A Terra têm tantas
“Áfricas”! Tantos Vietnans. Tantas Américas.
Tantos desertos com areia encharcada de
sangue! Tantos Holocaustos. Tantas Hiroshimas.
Tantas Inquisições, Cruzadas, Guerras “Santas”!
Tantos Reichs, Imperadores, Césares, Czares,
Faraós! Terra, cujo sinônimo é: planeta terror! E
por trás desse sinônimo horrível reinam, a
Política, a divisão religiosa e étinica: reina o ódio.
A prática da violência, inconcebível, usa desde o
simples machado até as sofisticadas armas
“inteligentes” e nucleares. A Terra é um planeta
em que os habitantes vivem juntos, mas em
mundos paralelos. Alguns têm muitas glebas,
imensas; muitos outros, nada. Uns vivem em
belas mansões com dignidade. E juntos, bem
vizinhos, uma multidão em míseras favelas. E
tantos, ainda, disputando um lugarzinho sob as
pontes, debaixo dos viadutos das cidades. Na
Terra há tantos palácios com gente bem nutrida e
sorridente. Mas há outra legião chorando, com os
filhos morrendo de fome, sem encontrarem um
albergue. Algumas nações são muito ricas,
riquíssimas, poderosas, já outras; paupérrimas,
famintas, sempre dependentes das migalhas que
sobrarem da vontade dos poderosos.
Prezados edenitas, desculpem meu
lamento. Mas vocês pediram um relatório
completo. Lamento ter que contar estas coisas
lastimáveis do mundo de onde venho. Claro que
lá também há coisas boas. Mas são sufocadas
pelo mal crescente. E nós, terrestres,
continuamos esperando! Diante dos graves e
inúmeros problemas da Terra que relatei a vocês,
vejam quanta diferença há entre a vida de vocês
e a dos terrestres. Por isso, aproveito a
oportunidade em que vão divulgar minha carta a
todo o seu planeta, este planeta maravilhoso que
eu chamo de Planeta dos Alquimistas. Eu peço
que, por favor, me ensinem a fórmula do elixir que
propiciou ao Planeta de vocês ser tão bem
sucedido. Assim, eu levarei o ensinamento da
fórmula para a Terra e lá, então, utilizando o elixir
de vocês, todos os terrestres poderão construir
um mundo glorioso.
Ajudem-me. Eu agradeço em nome dos
meus sofridos irmãos terrestres.
James, o astronauta terrestre em Éden.
Todos os meios de comunicação
transmitiram, divulgaram e comentaram em todos
os detalhes a carta de James no Planeta dos
Alquimistas. A repercussão foi de espanto total no
planeta inteiro. Mas houve uma exceção. Nenhum
órgão de comunicação, nenhuma pessoa, disse
uma palavra ou fez comentário sobre o pedido
que James fizera sobre o seu procurado elixir
milagroso.
CAPÍTULO 6
Era noite.
Passara um ano e meio, desde que a nave
pousara no Éden. Durante muito tempo, James
insistia com Kilvan. Queria que lhe revelasse a
fórmula do elixir ou poção que fazia com que os
edenitas vivessem bilhões de anos, em pleno
vigor físico e juventude. A resposta de Kilvan era
sempre a mesma. Dizia que não havia fórmula de
elixir e que os edenitas nunca tinham se dedicado
a nenhuma dessas descobertas científicas. À
proporção que James os chamava de alquimistas,
ele insistia em afirmar que não possuíam
nenhuma bebida milagrosa.
O astronauta ficava intrigado. Se os
terrestres eram da espécie racional e fisicamente
idênticos aos edenitas, por que os da Terra viviam
tão pouco? Por que o terráqueo era de curta
duração, e a rápida vida tão frágil e cheia de
problemas? Por que uma pequena existência
repleta de doenças desde o berço até a morte?
Se não eram diferentes dos edenitas em nada,
qual a razão para tamanhas diferenças em suas
vidas: terrestres morrendo logo e eles nunca?
Outra coisa James descobrira: os edenitas
tinham cérebro igual ao dos terrestres. A
capacidade da razão era a mesma. Por que,
então, eles os utilizavam milhões de vezes mais
que os homens da Terra? Essas perguntas
importunavam o astronauta.
James saiu da nave e sentou-se numa
pedra. Olhou para o céu noturno. Logo a linda
Lua de Éden o fascinou como se fosse uma jóia
pendurada no espaço. Por detrás da Lua, um
fundo escuro como um azul aveludado, macio,
parecia deixar pender bilhões de estrelas que
salpicavam o céu. Piscavam uma a uma.
Pareciam pingos de prata cintilantes. James,
deslumbrado, olhava para todas elas, correndo a
vista de um canto para o outro. A visão fazia com
que o astronauta ficasse calado, mudo. Tinha a
impressão de que aquilo tudo que cercava - como
o mar cerca um grão de areia - queria lhe dizer
algo. Seria ele que olhava para o Universo ou o
céu estrelado é que o observava? James existia
para as estrelas ou as estrelas, para ele? Então,
lhe veio à lembrança um poema de Davi que lera
há muitos anos na Terra:
“... Quando vejo os teus céus, obras dos teus
dedos, a Lua e as estrelas que preparaste; que é
o homem mortal para que te lembres dele?...
Contudo o fizeste pouco menor que os anjos, e
de glória e de honra o coroaste; faze com que ele
tenha domínio sobre as obras das tuas mãos;
tudo puseste debaixo de seus pés”.
E James meditou: “Eu sou apenas menor que os
anjos! Este é um grande privilégio. Eu nunca me
dera conta disso!”
Sentiu um arrepio. Não de medo. De uma
profunda e gostosa emoção que lhe dava a
impressão de vir do fundo do Universo e lhe
penetrava o peito. O coração gostou. Deu um
longo suspiro. Respirou fundo e pausadamente,
por muitas vezes. O aroma das flores de Éden lhe
enchiam a alma. Quando olhou para o relógio,
eram altas horas da madrugada. Voltou para a
nave. Adormeceu. Dormiu tranquilo e satisfeito
como um bebê, quando a mãe o alimenta e o
aninha em seus braços. E embalado por todas
as estrelas que cintilavam lá fora, no céu, o
astronauta sonhou com sua querida, a bela
edenita. Os sonhos, muitas vezes são como uma
poesia. E o terrestre tinha alma de poeta. Assim,
dormindo, viajou pelo reino do amor nas asas da
poesia que sua amada lhe inspirava...AMOU,
AMOU, AMOU!
E o astronauta sonhou. Doces sonhos.
Daqueles sonhos que as pessoas que amam têm.
Sonhou com Lyvia e seu coração pulsou forte.
Conhecera a edenita numa viagem pelo planeta.
Imediatamente, dela gostou. Ela, dele também.
Ele não era versado em palavras de amor, mas
seus olhos essa falta superaram, quando com os
olhos da edenita cruzaram. Aquela era sua flor.
Parecia que o mundo havia desabado, ele ficou
encantado, enamorado. Sentiu no peito, um
ardor. No sonho, ele disse a ela, quando aparecia
numa janela:
Amada minha.
Querida flor do espaço
que habitas aqui entre as estrelas
longe, ao fundo das mais distantes galáxias.
Onde só atinge algo mais veloz que a luz,
lugar onde só outra coisa humana chega:
O meu pensamento, mais rápido que um raio,
meu imenso amor, que a ti me conduz.
Rosa delicada
de pétala aveludada,
vermelha, sedosa, macia.
Neste teu mundo tão belo
onde tudo é puro e singelo
tens milhões de anos de idade.
No entanto, és jovem como uma adolescente!
E agora? Teu coração eterno pulsa por mim.
Mas ele é eterno!
Que farei eu
quanto ao meu
que vive por tão pouco?
O limite, a brevidade
dessa minha vida por isso está me deixando
louco.
Como te amar diante da tua longevidade
em eterna beleza?
Esse é o motivo que me causa tristeza...
Na Terra... disse o homem Jó,
“que o homem nascido de mulher
é de vida curta e cheio de agitação”.
Por isso, diante do teu coração,
te amo tanto e... me sinto tão só.
E Davi, lá em meu planeta, grande rei,
disse, me lembro, ‘que a duração de nossa vida’
- tão sofrida mas querida -
é de setenta anos
e que, se alguns pela sua robustez
chegam aos oitenta - talvez -
o melhor deles é em canseira e enfado
pois passa rapidamente e nós voamos’.
Querida,
nós, lá da Terra, amamos muito a vida,
mas, ah, que sorte!,
nos frustra a realidade da morte.
Já imagino o lamento, o sofrimento
que invadirá meu coração, meu pensamento,
no dia em que eu à Terra regressar.
Como posso te deixar?
E por outro lado, de que valeria te levar?
Pois sei que este é o jardim que perfumas, que
enfeitas.
Este é o teu lugar...
E como as estrelas iriam suportar
que eu retirasse o espelho do brilho delas
- espelho em que se vêem - teu olhar?
Flor do espaço... flor, minha flor!
A ti, procuram os beija-flores
assim como o meu coração.
Que jardineiro te plantou nessa imensidão,
neste cantinho entre as estrelas? Minha bela!
Para que as estrelas dissessem umas às outras:
“Nosso brilho nunca será como o dos olhos dela?”
Que jardineiro cultivou tua existência,
para que nunca murchasses?
Eu pediria, a ele:
- Dá-me esta flor, por favor,
para que eu a plante em meu coração.
E já que com ela não posso sempre viver;
estará junto a mim, quando eu morrer.
Querida!
Para que serve só uma vida?
Sim, esta minha pobre vida, pequenina!
Enquanto tu continuarás sempre como eterna
menina!
Menina, como aquela moça dos sonhos
que um dia o rapaz conhece
e com o coração marcado em brasa,
nunca mais dela esquece.
Aquela marca como cicatriz profunda, dura,
que sempre será lembrada por toda a vida futura.
De repente, o sonho mudou e as cenas foram se
transformando, o astronauta sonhou:
Não! Não! Quando à Terra eu voltar,
aqui a terei de deixar.
Este é o seu jardim.
Para que levá-la à Terra? Para morrer?
Só por que a quero para mim?
Por que a faria sofrer?
Nisso porei um fim!
Renuncio! Vou renunciar,
pois renunciar também é amar.
CAPÍTULO 7
Amanheceu. Clareou.
Novo dia se fez. E quem anunciou isso
foram os raios brilhantes do Sol de Éden. Eles
disseram a James, por meio da luz, murmuraram:
“acorde”.
Acordou agitado, suado, chorando. Os
olhos estavam bem molhados. - Quem nunca
chorou por causa de seus sonhos?
O sonho mexera com os nervos do
terrestre. Despertou nele uma sensação de
regressar à Terra. Só que, junto a este
pensamento vinha uma amarga, triste, mas
necessária decisão. Teria que deixar sua amada
em Éden, quando à Terra retornasse. Era a única
solução. Não encontrava outra. Seu coração
estava arrebentando. Mas seria assim. Aí lhe veio
aquele desespero. A ânsia incontida de encontrar
a fórmula do elixir. O que custaria aos edenitas
ensinarem a coisa? Ele não estaria roubando
nada deles. Os habitantes do Planeta dos
Alquimistas não seriam prejudicados em nada.
Não seria errado se ele conseguisse a fórmula.
Teria que tentar. Custasse o que custasse, ele a
buscaria. James sabia como precisam ser as
coisas. Quando as pessoas querem algo que é
bom, que seja para o bem próprio e dos
semelhantes, há uma sequência para ser
cumprida. Primeiro vem a idéia. A seguir, analisase
a necessidade e consequências para si e para
os outros. As consequências sobre os outros
influem muito na decisão. Mais do que a
necessidade para si próprio. Se a decisão for a de
buscar o algo almejado, então chegou a hora da
ação. Muita ação, trabalho e persistência, pois
qualquer pensamento ou decisão, que não forem
transformados em ações persistentes, não levam
a nada. Ficam só no sonho. Pensando e
transformando suas idéias em ações, o
astronauta saiu da nave. Naquela manhã, não
havia ninguém por perto. Parecia um momento
propício para nova tentativa. James entendia que,
quando se deseja obter algo, milhares de
tentativas devem ser feitas. Mesmo que sempre
falhem Ele sabia que a tentativa é a mãe da
realização. Partiu em direção à ÁREA PROIBIDA.
Ela não ficava muito distante. Situava-se numa
região entre a residência de Kilvan e a nave.
Andou por quase uma hora. Furtivamente.
Esquivava-se por entre a vegetação, quando
alguém passava. O dia não estava muito
movimentado, poucas pessoas andavam pela
localidade. Afinal, chegou perto.
Saindo da estrada principal, seguiu por um
carreador parecido a essas trilhas do campo por
onde se costuma andar. Ninguém o vira desta
vez. Não era difícil entender por que não havia
edenitas por ali. Era fato notório que eles - como
James sempre observara -, nem chegavam perto
da área. Parecia que os nativos não tinham a
mínima curiosidade sobre tal local. “É que eles já
têm o elixir. Por que se preocupariam, já que
estão lá dentro da área os alquimistas que o
fabricam e depois abastecem todo o planeta?” -
pensava o astronauta. Mas para ele, era
diferente. O terrestre precisava do elixir da
mesma maneira que alguém, que passe alguns
dias perdido no deserto, precisa encontrar água.
O astronauta tinha muita sede, sede de achar a
vida infindável. Chegou bem em frente.
A ÁREA PROIBIDA era uma região
especial. Mais bela ainda do que as outras
regiões do planeta. Percebia-se isso já por fora.
Era cercada por uma cadeia de montes
enfileirados, não muito altos. Por todas as
encostas dos montes ou paredões que rodeavam
a área, parecia que o Universo aproveitara para
fazer uma exposição de flores. Os olhos se
encantavam com a variedade dos tipos e das
tonalidades das cores. Bandos de pássaros
voavam sobre a área. James imaginou: “ se é tão
bela por fora, será ainda mais por dentro!”
Conteve a emoção. A alegria pulou dentro
dele e queria lhe explodir o peito. Lembrou-se de
que, mesmo em momentos felizes, é preciso ter
cuidado. A emoção da satisfação muito forte pode
matar. Segurou-se. Aquele não era momento
para morrer, nem mesmo de felicidade. Sua
cabeça dizia: “lá dentro deve estar o laboratório
secreto dos alquimistas com todas as dicas sobre
a fórmula fantástica do elixir da longevidade, a
química alquímica dos eternos”.
Havia uma entrada, sem portas.
Totalmente aberto, um corredor, que fazia uma
grande curva logo depois da entrada. A curva do
corredor impedia que alguém de fora avistasse
algo dentro da área.
James sentiu-se confuso. Chegara até ali
com muito esforço. Era o momento próprio.
Ninguém o vigiava. Por que sentia aquele
estranho receio, certa indecisão para entrar?
James passava por aquele problema tão
comuns dos humanos. As pessoas lutam muito
correndo atrás de um objetivo. Quando o
conseguem ficam temerosos, receosos, pois toda
conquista gera certa responsabilidade. E a
responsabilidade, receio. Além de olhar muito
aquela entrada tão conhecida e visível,
escancarada e até convidativa a todos. O
terrestre andou um pouco em volta do sopé dos
montes, para ver se havia outras entradas. Não
encontrou nada. Era somente aquela, a única.
Voltou para onde era a entrada. Foi aí que
teve uma ideia. Todas as vezes que tentara entrar
pela porta, sempre fora impedido. Devia, então,
inovar. Buscar outro meio. “Quem inova,
consegue” - pensou.
Rodeou outra vez os montes, andando
entre os arbustos, quieto e sorrateiramente.
Chegara, finalmente, o grande dia. A solução
seria subir pela encosta de um monte, transpô-lo
e, depois, descer pela encosta interna, indo parar
dentro da área. Subiu pela encosta do monte.
Escolheu um menos elevado que os outros.
Demorou uma meia hora. A elevação não era
muito inclinada ou íngreme. Foi até fácil escalá-la.
Já estava chegando ao topo do monte.
Uma vez estando lá, bastava descer e estaria
dentro da área. Mesmo antes de atingir o topo,
dava para perceber, olhando por cima - mesmo
sem enxergar a parte interna -, que a área era um
local incomum no planeta. Era diferente,
extasiava os olhos de qualquer um.
Afinal, chegou ao topo. Estava suado e
vermelho pelo esforço na subida. Suas mãos
agarravam, fortemente, as bordas da rocha, a
última rocha. Depois de tantas tentativas, havia
conseguido. Quando deu o último impulso com o
corpo, para pôr-se de pé no cume do monte e
observar toda a área, e ver como era o laboratório
dos alquimistas, ouviu uma voz, um grito forte.
- James, volte. Desça daí!
A princípio não reconheceu a voz. Parecia
uma criancinha assustada, quando a mãe grita e
sente-se descoberta, mexendo em algo que não
devia. O susto não o deixou perceber de quem
era a voz imediatamente. Imaginou mil coisas.
Voltou a cabeça com rapidez. Olhou na direção
de onde vinha a voz. Apesar de estar no topo do
monte, não conseguira olhar para dentro da áera.
Aquele susto desviara, totalmente, sua atenção.
Estava mais preocupado com a voz. Há alguns
metros de distância, pouco abaixo, viu, era Kilvan.
- James, James. Por que ousar? Por que
tanta teimosia? Por que tentar entrar onde nossa
lei proibe? No primeiro momento, o terrestre
ficou envergonhado, encabulado. Corou. Perdeu
o jeito. Disse:
- A proibição é para os edenitas. Eu sou
terrestre. Assim, entendo, não estou
transgredindo a lei. - Quando se reside na casa
de outros, há a obrigatoriedade de se adaptar às
normas dos outros e não estabelecer a nossa
própria.
O astronauta entendeu que o edenita tinha
razão. Ele não estava na Terra. A área era
proibida. O correto seria acatar a proibição. Há
que se respeitar a casa alheia.
- Acompanhei os seus passos hoje, James.
Não que eu tivesse a intenção de vigiá-lo.
Coincidiu. Quando percebi sua intenção renovada
de entrar na área, o segui. Para protegê-lo. Só
com esta intenção.
- Proteger-me de quê? Proteger-me de
conseguir algo que quero tanto e preciso? Que
proteção é esta?
- Protegê-lo da transgressão à lei. Mesmo
quando desejamos algo, fortemente, não
podemos buscá-lo se a lei não o permitir. A lei
rege o Universo. Toda lei é feita, primariamente,
com o propósito de nos servir em algo bom.
Mesmo que não a entendamos, James.
- O “algo” bom que preciso está lá dentro!
Que lei é esta? Como me serve?
James estava indignado. Kilvan
compreendia. O terrestre desceu, triste, do topo
do monte em direção ao edenita que o chamava.
- James, por que tenta tanto? Tantas
vezes?
O edenita, amigavelmente, sorria. Não
estava bravo. James respondeu:
- Meu amigo, eu acreditava, sempre
acreditei que a tentativa fosse a mãe da
realização. Mas, cansei. Chega. Desvaneceramse
todos os meus sonhos. Assim como a neve
derrete-se com a chegada da estação quente. Eu
estou esgotado. Já pedi demais. Corri muito.
Busquei tanto. Acho que, o que busco, é
DESTINADO a não ser achado. Kilvan perguntou:
- Não vai mais tentar conseguir o elixir?
Nada é destinado, James. As coisas são
buscadas ou não, conseguidas ou não. Claro que
alguns imprevistos podem ocorrer no percurso da
busca.
James, sentado, com a cabeça abaixada,
chorava baixinho. Não queria que o edenita
percebesse. Continuou falando, como um
murmúrio ao nativo:
- Esta noite sonhei com Lyvia. Estava mais
linda que nunca. Mas não é a beleza dela que
amo. Sei que, por trás de sua aparência física, se
esconde um ser maravilhoso. A mais linda das
mulheres. Aquela modesta, do espírito quieto e
brando, que agrada a qualquer um que a
conheça. A beleza maior dela é interior. A
condição mais procurada nas mulheres pelos
homens que amam de verdade. A verdadeira
beleza que as mulheres de Éden têm.
James ergueu os olhos para Kilvan. O
edenita absorvera frase por frase do terrestre. O
rosto de qualquer um revela o seu íntimo. A face
de Kilvan mostrava que entendia tudo o que
James sentia, sua aflição. O astronauta continuou
murmurando. Novamente, estava cabisbaixo.
- Terei que regressar à Terra. Não me é
possível manter um amor para o qual só existe
esta minha vida tão curta. Eu teria que ter mais
vidas. E se eu tivesse sido o inventor do amor,
teria dado vida sem fim aos que amam
verdadeiramente, pois, quem ama, tem que ser,
precisa ser, eterno!
James não viu, mas suas palavras fizeram
rolar uma pequena lágrima pelo rosto do edenita.
Os eternos também choram, porque são os que
mais entendem sobre o verdadeiro amor.
O astronauta fez aquela que, para ele,
seria não uma simples tentativa, mas uma
súplica. Ergueu a cabeça e clamou ao edenita.
Clamou, brandamente:
- Por favor, deixe-me entrar na ÁREA
PROIBIDA. Eu preciso, necessito encontrar a
fórmula do elixir da vida sem fim...
Antes que terminasse as palavras, o nativo
o interrompeu. Fitando-o diretamente nos olhos,
com calma e em tom bondoso, pediu que James
se erguesse de onde estava sentado.
- James, sua persistência não foi inútil.
Todo aquele que coloca todo o empenho, todo o
coração à frente de suas tentativas, alcança.
Principalmente, quando se tentam coisas em
nome do amor. O amor não decepciona ninguém.
- Então, vai me deixar entrar? - Os olhos
do terrestre brilhavam de alegria. O rosto
estampou, mostrou que a felicidade voltara a
morar em seu íntimo. Sorriu, riu muito.
- Não há a necessidade de entrar na ÁREA
PROIBIDA. Poderá obter o que deseja sem
desrespeitar a lei.
- Como, se o laboratório, os alquimistas, os
químicos - tudo está lá dentro? A fórmula está lá!
- Eu tenho uma cópia da fórmula. Está
comigo aqui fora. Todos os habitantes de Éden
têm. Vou lhe presentear com uma cópia.
- Custa-me crer. Estarei sonhando? Se a
tem, por que não me deu antes? Viu a minha luta,
a procura, a busca!
- Terrestre, seu desejo teve que se adaptar
a um grande princípio para ser atendido.
- Princípio! Que princípio?
Este aqui, James, é o planeta dos
persistentes. Será dado àquele que buscar, bater
persistentemente, muito e muito, para que as
portas lhe sejam abertas e, ainda se a busca
estiver relacionada com a necessidade real. Você
buscou. Você necessita. Você achou. Mas a
nossa persistência máxima é a de obedecer à lei.
James pulou de contente. O semblante era
outro. Os dois desceram monte a baixo. Em
pouco tempo estavam no sopé outra vez.
- Dê-me então a cópia da fórmula. É muito
complicada? Conseguirei fazê-la? Será que
existem os componentes químicos na Terra? E se
só forem encontrados no Éden, como farei?
Posso transportá-los?
- Calma, meu amigo. Uma pergunta de
cada vez. Compreendo sua ansiedade. Mas,
mesmo quando atingimos um objetivo tão querido
e há muito procurado, há que se manter a mesma
tranquilidade com a qual se buscou. Não permita
que, ao alcançar seu objetivo, isso se transforme
num sofrimento maior que o havido na busca.
- Terei calma. Entendo. Mas não posso
perder tempo. Você sabe que, sendo eu um
terrestre, meu tempo é limitado. Não posso
desperdiçá-lo. A vida do terrestre é curta.
- Não ganhará mais tempo sendo ansioso.
Perderá. As respostas às suas perguntas virão
quando chegar o tempo para tê-las, pois tudo tem
o seu tempo.
- Quando, então, me dará a copia, senhor
“tranquilo”?
Kilvan achou graça no que James disse.
Os eternos também tem humor e se alegram
muito. O bom humor e alegria estão presentes
nos seres eternos. Nunca são enfadonhos. Se
fosse o sofrimento sim. O sofrimento é
companheiro constante dos que têm o tempo
limitado e sabem que, um dia, haverá um ponto
final determinado pela morte.
- Lhe darei a cópia da fórmula. Mas há
uma condição que coloco, para lhe entregar.
- Qualquer que seja eu a aceitarei, Kilvan.
- Acredito que sim, pois, quando queremos
algo, não reparamos muito nas condições
impostas. Analise primeiro minha condição para
depois responder.
O terrestre compreendeu. E se a condição
estipulada fosse tal que o deixasse pior que
antes?
- Na Terra, dizemos: “ não ir com muita
sede ao pote”.
- É isso mesmo.
- Diga-me a condição.
- Primeiro gostaria de saber. Quais serão
os seus passos? Que fará quando eu lhe der a
fórmula?
- Regressarei à Terra de posse dela. Lá, a
disseminarei para que todos os terrestres possam
vir a se beneficiar do seu uso. Eu também a
utilizarei. Depois, sendo eterno, voltarei aqui para
o meu amor, à minha querida Lyvia, que, tenho
certeza, me esperará.
- Faz muito bem em pensar assim. É mais
um motivo para eu lhe dar a fórmula, porque os
eternos pensam, primeiramente nos outros e,
depois, em si próprios.
- Então, qual é a condição?
- No dia em que você partir do Éden de
volta à Terra, dar-lhe-ei a fórmula, uma cópia
dela, guardada, fechada dentro de uma pequena
caixa. A cópia é uma espécie de pergaminho
onde estão escritos todos os dados. A caixa, no
entanto, estará fechada, lacrada. Em seu
mecanismo de fecho há um segredo programado
para ser aberto somente daqui a trinta anos. O
tempo exato que você gastará para sair do Éden
e chegar à Terra. De maneira nehuma, mesmo
que tente, a caixa se abrirá antes dos trinta anos.
Que me diz?
- Que alívio, Kilvan. Pensei que a exigência
fosse bem maior. Acordo fechado. Aceito.
James pensou: “aprendi mais uma
novidade: os eternos nunca fazem grandes
exigências!” O astronauta não cabia em si de
contente.
CAPÍTULO 8
Quando um objetivo é alcançado, as
energias se renovam. A sensação de cansaço e
desânimo é substituída por um vigor e vontades
notáveis. Isso se deu com o astronauta. Ficou
muito motivado. Solicitou ajuda aos edenitas.
Todos colaboraram e, em pouco tempo, sanou o
defeito da nave. Reparou o rombo que
acontecera quando ela entrara na atmosfera
superior, alta, do planeta. Ficou pronta para a
longa viagem. Ele retornaria sozinho. Não haveria
problema algum, pois o sistema de computadores
controlaria a nave pelos trinta anos à frente,
desde o Éden até a Terra. O astronauta não teria
que efetuar nada a bordo. Apenas faria a
programação inicial e depois hibernaria
controlado pelo sofisticado sistema de hibernação
da nave, pelo tempo necessário, para que não
sofresse o estresse que a longa viagem poderia
causar. O terrestre dominava muito bem a
operação do sistema. Já a conhecia por muito
mais de trinta anos, quando viera, partindo aos
quinze anos de idade, da Terra até o Planeta dos
Alquimistas. A operação da viagem seria toda
automática.
Chegou o grande dia. Kilvan lhe entregou
uma pequena caixa de material forte, resistente.
Nela, estava guardado, lacrado, por um período
de trinta anos, o pergaminho com a fórmula
secreta. Uma caixa de material inviolável. James
guardou a caixa com todo o carinho. Nunca em
sua vida algo lhe era tão caro. Olhou bem para
ela, e segurando-a com uma das mãos a
acariciou com a outra.
- Kilvan, tenho algo aqui - James disse, e
enfiando a mão no bolso tirou uma carta e a
entregou ao edenita - por favor, entregue a ela.
Era uma carta de despedida para Lyvia. O
nativo guardou com cuidado.
- Na primeira oportunidade em que
visitar a região onde mora, entregarei.
O terrestre agradeceu. A carta dizia:
Lyvia, amada querida.
Minha flor perfumada que enfeita o jardim
de minha vida. Quando ler esta carta, já estarei
distante. Sei que, bem antes, já terá sabido das
notícias pelos meios de comunicação. Mas eu
não aguentaria despedir-me pessoalmente. Há
coisas que nós, da Terra, não suportamos frente
a frente. E, neste caso, uma carta diz as palavras
que minha boca não diria, pois seria fechada pelo
meu coração. É impossível para mim ficar neste
planeta. Eu andei, como você sempre percebeu,
triste e desesperado, pois não havia encontrado a
solução que tanto procurava. Buscava uma
chance, mesmo que remota, de te amar por toda
a eternidade. E a chance apareceu, pois Kilvan
me deu algo fantástico. A fórmula da vida, mas
que só me será revelada daqui a trinta anos,
quando na Terra, minha nave tiver pousado.
Você viu, naquela mensagem que enviei a
todos os edenitas, a situação infeliz em que vive o
povo da Terra. Notou quanta violência, crimes,
guerras? Percebeu o sofrimento sempre
crescente? Como eu, tendo a solução, poderia
ficar quieto, acomodado, aproveitar bem minha
descoberta, enquanto bilhões sofrem em meu
planeta precisando dela? O segredo da vida não
é só para mim, é para todos! Irei deixá-los felizes,
contentes.
Então, planejei ir à Terra. Vou, ensino a
fórmula e, cumprida esta missão, rapidamente,
volto para você.
Não sinta receio, medo. Eu voltarei. Não há
mais motivo para que eu renuncie a você. Saiba
que, por toda a eternidade, te amarei. Agora, meu
coração está dolorido por te deixar, mas, trinta
anos passam rápido porque os eternos não têm
pressa. Veja, meu bem, já até estou aprendendo
a falar como os eternos. A eternidade é apenas
uma pequena estrada que ficará postada diante
de nós, aguardando nosso reencontro. Não tenho
mais angústia, pois vou tomar o elixir e minha
vida fluirá para sempre. E, então, poderemos
CUMPRIR AMOR. O amor será a Constituição
que regerá todas as decisões de nossos
corações. Não lamente minha partida, meu amor,
minha querida! Espere-me do mesmo jeito que a
flor: ela sabe que o beija-flor retorna.
Do seu, - e agora posso dizer -
ETERNAMENTE,
James.
Tendo Kilvan guardado a carta, o
astronauta ia entrando na nave. Mas, ouviu um
gritinho, fino, de alguém que, correndo chegou até
a escada do veículo espacial e puxou a barra de
sua calça. Era um pinguinho de gente. Uma
sementinha de amor. James abaixou-se e a
pegou nos braços.
- Letícia... Lelê! Não nos víamos desde
aquele dia com a garotada! Por onde andou?
- Pelo Éden. Passeei, vi muitas coisas.
Mas não gostei quando me disseram que a sua
casa que anda pelo céu ia embora e que você ia
nela. Você vai para o céu, lá onde você mora?
Por que? Fique aqui!
Eram tantas as situações que James não
aguentava. O astronauta tinha dúvidas. Qual das
duas mulheres edenitas era mais difícil deixar.
Lyvia, sua amada, ou aquela sementinha da
eternidade, pingo de amor, grãozinho vivo e
querido, perdido em meio a tantas estrelas? Foi
muito difícil o astronauta se conter. A garotinha
apertava seu pescoço.
- Você me leva? Quero ir morar no céu
com você.
James a beijou. Colocou-a no chão e fez
um carinho no seu rostinho mimoso.
- Querida, vamos combinar uma coisa. Eu
tenho algo muito importante para levar às
criancinhas da Terra. Você gosta delas?
- Gosto. Quero conhecê-las.
- Então! Combino o seguinte com você. Eu
vou para...para esse lugar onde eu moro e que
você chama de céu. Enquanto isso você brinca,
vai à escola e cresce praticando o amor como o
seu povo. Fique olhando sempre para o céu pois,
um dia você verá minha nave voltando e
descendo bem aqui. Está bem? Eu prometo que
volto.
- Está bem, James. Eu espero. O que você
tem aí nessa caixinha?
- Ah, um grande presente. Foi um presente
que Kilvan e todo o seu povo me deu para levar
às criancinhas da Terra!
O astronauta entregou a menininha aos
seus pais e, antes que se arrependesse e alguém
notasse seus olhos vermelhos, deu um abraço
em Kilvan. Acenou para todos, agradeceu muito
e, rapidamente, entrou na nave. Em poucos
instantes, como um pontinho, a espaçonave
sumiu no espaço.
CAPÍTULO 9
Trinta anos passaram. Três décadas
inteiras de regresso à Terra, dentro de uma nave!
Após sessenta e dois anos de ausência, o retorno
à Terra.
Finalmente, o belo globo azulado aparecia
diante do visor da espaçonave, mostrando todos
os seus lindos contornos geográficos. Por mais
que tentasse, o astronauta não conseguia contato
pelo rádio com o planeta. Necessitava de
instruções para pouso. Não atendiam. Não havia
comunicação. Mesmo assim, sem conseguir
transmitir ou receber nenhuma mensagem,
prosseguiu para pouso. Acreditava que os
radares estariam captando de alguma maneira a
entrada da nave na atmosfera terrestre. Penetrou
e foi descendo sem instruções. Como não era um
pouso controlado, o melhor lugar que encontrou,
naquelas circunstâncias, foi uma grande praia,
limpa e deserta.
Após pousar, James tentou novamente,
por várias vezes, contato via rádio. Nada.
Nenhuma resposta. Esperou mais algum tempo.
Tirou a vestimenta de astronauta e vestiu traje
terrestre comum. Praia vazia. Manhã. Os
primeiros raios dourados do Sol tingiam o
horizonte com um tom avermelhado. Pegou a
caixinha e desceu.
Fora da nave, olhou para todos os lados. O
mar beijava a areia da praia, deixava um manto
de espuma e recuava novamente num vai e vem
de ondas constantes. Um bando de gaivotas
partia em busca de alimentos. James não via
nenhum habitante. Não enxergava barcos
pesqueiros. A todo momento, olhava para a
caixinha e a segurava bem.
Resolveu andar um pouco. Afastou-se,
caminhando lentamente, uns quinhentos metros
da nave. Sempre atento para todos os lados. A
brisa era fria e agradável. O Sol se erguera mais.
O dia estava bem claro. Foi aí que começou a ver
alguns pequenos barcos de pesca no mar,
próximos. Olhando mais à frente, para os lados
de uma encosta montanhosa, viu algumas casas.
Era um vilarejo. Firmando bem sua envelhecida e
cansada vista, percebeu que, ao longe, vinham
algumas pessoas. Pareciam pescadores com
rede de pesca, prontos para iniciarem seu
trabalho diário. Correu ao encontro deles, antes
que entrassem no mar. Aproximou-se dos
pescadores.
- Bom dia, amigos.
Os caiçaras responderam, quase que ao
mesmo tempo, com a mesma cordialidade.
- Bom dia, senhor - e um deles perguntou:
- Logo cedo na praia? Está hospedado
aqui por perto? - Imaginaram ser um idoso
perdido.
James ficou um pouco embaraçado com a
pergunta. De que maneira contar de onde viera, o
que fizera? Aqueles moradores da região praiana,
homens simples, pescadores, entenderiam a
história? Qual seria o impacto neles se relatasse
algo? Pensou mais um pouco. Teria que dizer
alguma coisa.
- Não, amigos. Não estou hospedado em
nenhum lugar.
- Não? Então está acampado?
O embaraço aumentou.
- Acampado?
Teve a idéia de entrar logo no assunto.
- Não. Não estou acampado. Estou ali...
ali, distante daqui mais ou menos um quilômetro.
Cheguei... - hesitava em dizer -, cheguei... a
verdade é que estou meio perdido. Será que os
amigos poderiam me ajudar a me localizar?
- Claro. Mas o senhor chegou de onde?
Veio da cidade grande?
- Por favor, venham comigo que eu lhes
explicarei melhor.
James resolveu que a melhor maneira de
iniciar era levá-los até a nave. Convidou-os e os
praianos foram com ele. Pelo caminho, ia
tentando contar o caso. Enquanto isso, não
largava a caixinha da fórmula.
- Logo verão como cheguei aqui. Vim de
muito longe. Para dizer a verdade... acabei de
chegar do espaço, após uma viagem de mais de
sessenta anos.
Ao ouvir isso os pescadores pararam.
James também parou. Os praianos se
entreolharam e não conseguiram ficar sem rir. Era
um riso respeitoso, mas incontido. James riu
levemente em resposta. Estava desconcertado.
- Amigos, sei que é difícil acreditarem,
entenderem. Eu mesmo já esperava isso, desde
que encontrei vocês. Relutei muito. Pensei
bastante antes de dizer isso. Mas tenho que
contar a verdade. Tenho que começar... e o início
da história é este, cheguei do espaço. Enquanto
conversava, não desgrudava da caixa do segredo
da vida. Um dos caiçaras perguntou:
- Quantos anos tem, senhor... senhor...?
- James. Meu nome é James. Tenho
setenta e sete anos completos.
- É bem conservado, senhor James.
- James gostou do elogio e agradeceu. O
caiçara continuou:
- Bem, o senhor disse que tem setenta e
sete anos. Viajou quanto mesmo? - O pescador
fingia estar sério.
- Viajei sessenta anos. Trinta para ir e
outros trinta para o regresso.
- E quando começou a viagem, tinha
quantos anos?
- Eu era de apenas quinze anos quando
partimos da Terra. Permaneci uns dois anos
estacionado no planeta para onde fomos. Aí,
vejam, quinze, mais trinta para ir, mais trinta para
retornar, e dois lá...certinho: contam setenta e
sete anos.
- É um velho maluco - murmurou baixinho
um dos pescadores a outro - é um daqueles
sujeitos que acreditam em disco voador.
- Só pode ser. Tem muita gente assim no
mundo. Eu já vi tantos! - disse outro cochichando.
Riam baixinho.
James percebia todo esse comentário em
volta dele, mas fingia nada ouvir. Não queria
deixá-los mais embaraçados ainda. Continuou
56
andando e conversando com os pescadores.
- Vamos, amigos. É perto. Logo ali. Vou
mostrar-lhes minha nave e começarão a entender
tudo mais claramente. Então, depois, poderão me
ajudar.
Os caiçaras, conversando animadamente
com James e entre si, prosseguiram
acompanhando o astronauta. Para eles, tratavase
de um velhote esclerosado e não podiam
abandoná-lo, naquele instante, sozinho na praia.
Era melhor acompanhá-lo até encontrarem
alguém responsável por ele.
- É ali, atrás daquela curva da praia - disse
James após chegarem ao local onde havia
pousado sua nave e a praia fazia uma pequena
curva. Ergueu mais uma vez a mão e apontando
com o dedo mostrou o local.
- Ali, vejam... - com a outra mão, segurava,
firmemente, a caixa com a fórmula do Planeta dos
Alquimistas.
- Ali, onde? - perguntaram os pescadores -
cadê sua nave?
Os pescadores olharam atentamente.
Olharam muito, fixamente. Depois, com um ar de
descrédito, mas compassivamente, viraram-se
para James. Não disseram nada. James tornou a
olhar para o lugar onde havia descido com a
nave. Correu até o local. Incrédulo fez um giro
com os olhos em todas as direções. A
espaçonave não estava lá! Nunca mais ele a viu.
Nem ninguém! O velho abaixou a cabeça.
Chorou. Ele nem percebeu, suas mãos estavam
muito trêmulas e, a caixinha com o segredo da
vida, de suas mãos caiu. Na areia, perdida...
ficou.
CAPÍTULO 10
Na entrada do asilo dos velhinhos, havia
um grande e vistoso letreiro que dizia:
RECANTO DOURADO
Era um local destinado a cuidar dos idosos,
sem família. Uma instituição mantida com a ajuda
humanitária de filantrópicos empresários.
O local era limpo, decente, aconchegante.
Ali, um idoso poderia, pelo menos, passar o resto
de seus dias, com dignidade. Só acolhia quem
fosse sem família. E o hóspede mais recente, não
tinha nenhum familiar. Nem parentes distantes.
Sentado numa cadeira de balanço, na
varanda, ele lia os jornais, para saber como
estava andando o mundo. Afinal, fazia sessenta e
dois anos que não pegava um jornal terrestre.
Sentiu uma mágoa no peito, uma revolta, quando
leu a manchete e o artigo que seguia. O Jornal
dizia:
“PEREGRINO DO ESPAÇO JÁ ESTÁ NO ASILO”
O velhinho James, 77, que foi encontrado
perambulando por pescadores, em uma praia de
nosso litoral, afirma que esteve noutro planeta. O
idoso James diz ter deixado a Terra quando tinha
quinze anos, numa nave espacial em companhia
de seus pais. Após trinta anos de viagem,
pousaram num planeta que ele denomina de
“Planeta dos Alquimistas”. O homem afirma ter
passado dois anos no planeta e relata coisas
fantásticas que ocorrem com a civilização de lá -
tão fenomenais quanto a história de que seus
habitantes são iguais a nós e nunca morrem,
vivendo em eterna juventude. Diz, ainda, ter
demorado trinta anos na viagem de volta. Foi
recolhido por pescadores que o encontraram
caminhando pela manhã, sozinho, na praia,
perdido. O que provocou risos em toda a história
do velhinho, foi o fato de que, quando encontrado
pelos pescadores e ao relatar sua história, levouos
ao local onde afirmava estar a nave e, lá, não
havia espaçonave nenhuma. De qualquer
maneira, a história de James, o velhinho que
teima ter sido astronauta, é interessante - mesmo
sendo uma alucinação. O velho ainda diz ter
perdido uma caixa na praia que conteria a fórmula
de vida em eterna juventude - a mesma fórmula
utilizada pelos habitantes eternos do planeta que
visitou. Como o idoso
James não possui nenhum documento, e nem
foram localizados parentes, foi recolhido pelo
Serviço de Assistência Social da Instituição
Filantrópica “RECANTO DOURADO”. O Instituto,
apesar de não acreditar em nenhuma de suas
palavras - é óbvio - demonstrou interesse nele e
vai lhe dar moradia e assistência permanentes.
Para que os leitores percebam quão
absurda é a história relatada pelo senhor James,
vejam: a aventura dele - diz ele -, demorou o
tempo de sessenta e dois anos, desde que partiu
da Terra. Ora, nós estamos em 2001. Se
voltarmos no tempo sessenta e dois anos, ele
deveria ter partido da Terra em 1939. Na época,
não havia naves nem foguetes. Pura fantasia da
mente do senhor James.
James terminou a leitura do jornal. O
repórter tinha razão, afinal, ele não podia mostrar
provas. A nave sumira. Perdera a caixinha com a
fórmula que continha o segredo do elixir da vida
sem fim do Planeta dos Alquimistas. Nesta
mesma noite, tentou dormir, mas foi em vão. O
comentário do jornalista e todas as lembranças
eram fortes em sua mente. Não se conformava
com a situação. Virava-se para todos os lados na
cama, o sono não vinha. Lyvia, com seu
semblante belo e cativante não lhe saía do
pensamento, nem por um instante. Ele tinha toda
a certeza do mundo. Sabia. Vivera aquela
aventura em todos os seus pormenores. Estivera
mesmo no Planeta dos Alquimistas. Que planeta!
Nenhuma dor! Que incomparável Constituição,
CUMPRA-SE AMOR! Lá, ele nunca lera, nem
vira, o Livro Sagrado deles - de uma só folha,
duas páginas, com dois únicos e curtos capítulos.
Mas, como lhe disseram, era o único no planeta.
Para os edenitas, valioso.
E, como não dormia, deitado em seu
quarto, olhou pela janela. Observou as estrelas.
Fixou o olhar numa delas. Escolheu a que lhe
parecia mais bela. Seu pensamento viajou até lá.
Pensou em Lyvia:
“Querida, sabes como me sinto agora?
Como aquele pássaro sem ninho. Igual a
um náufrago que não tem a esperança de um
resgate. Pareço uma abelhinha que ficou perdida
da colmeia. Também, igual a um beija-flor que
nunca mais viu sua flor predileta. Meu bem,
agora, tornei-me prisioneiro outra vez da terrível
‘dor do nunca mais’... Hoje, com setenta e sete
anos, me olhei no espelho. Observei as marcas
implacáveis deste carrasco, o tempo, em meu
rosto. Confesso, frustrado, chorei muito. E pior de
tudo: perdi a caixinha com a fórmula da vida.
Minha querida, não sei como isto aconteceu. É
dura a realidade. Foi péssimo, pois a caixa seria a
maior prova de que estive aí. Mas, infelizmente,
ela está perdida e, por não ter provas ninguém
me acredita. Acabou-se o meu grande sonho, o
maior de todos, o sonho da eterna juventude.
Amor, como sofro. Sinto, a cada momento,
crescer em meu peito a ‘dor do nunca mais’.
Tenho tanta saudade de ti...”
Amanheceu. Naquela primeira noite,
James não dormiu.
Levantou-se bem cedinho. Saiu ao pátio do
asilo. Estava só. Os outros residentes ainda
dormiam. Ouviu uma voz de alguém com o
peculiar, psiu... psiu... Voltando-se para o local de
onde vinha a chamada, notou que era do portão
do asilo. Alguém o chamava e fazia sinal com a
mão com o conhecido gesto “vem cá... vem cá”.
Aquela pessoa estava mesmo chamando-o.
Aproximou-se do portão. O homem que o
chamava sorriu. Cumprimentou-o.
- Bom dia, senhor James. O senhor está
bem? James reconheceu. Era um dos
pescadores que estava com o grupo que o
encontrou na praia, quando pousara com a nave.
Sim, era um deles.
James o cumprimentou também. O
pescador, estendendo as mãos entregou um
pacote ao velho.
- Senhor James, o senhor perdeu isto na
praia. Depois que o senhor saiu, foi que percebi
que tinha perdido. Guardei comigo e, como sei
que é seu, vim lhe trazer. Naquele dia não tive
tempo. Desculpe.
O idoso pegou avidamente o pacote.
Quase deu um beijo no pescador, tanta era a sua
alegria. Agradeceu muito, várias vezes. Sorriu
bastante. Era a caixinha com a fórmula da vida do
Planeta dos Alquimistas. Estava bem fechada,
lacrada. O pescador se despediu e foi embora. Ia
chacoalhando a cabeça. Achou engraçado o
velho ficar tão contente por lhe devolver a
caixinha. O fato é que, aquele pescador, não teve
conhecimento das notícias dos jornais e, por isso,
não sabia o valor contido na caixa.
James, apressadamente, voltou correndo
para o seu quarto. O reaparecimento da caixa
afugentava a “dor do nunca mais”.
James chegou a seu quarto. Estava
ofegante e ansioso. Novamente, sorria.
Colocou com cuidado a caixinha sobre a
mesa. Examinou-a bem. Não fora violada. Estava
lacrada, bem fechada. Pensou:
“Agora, sim. Posso mostrar a prova a
todos, a fenomenal fórmula secreta do Planeta
dos Alquimistas!” Pegou a caixa na intenção de
abri-la. Mas outro raciocínio fez:
“Talvez possa acontecer que, se eu a abrir
sozinho, sem uma testemunha ocular, virem a
dizer que forjei algo.” Colocou, novamente, a
caixinha sobre a mesa. Pensou:
“A pessoa mais indicada para presenciar a
abertura da caixa seria o repórter que fizera a
matéria no jornal.”
Rapidamente, telefonou para a redação.
Convidou o jornalista para presenciar a cena. Ele,
sem crer muito na história, mesmo assim, aceitou
o convite. James não mexeu na caixa até que ele
chegasse.
Dentro de algumas horas, o repórter já
estava no asilo. Consigo, trouxe um fotógrafo.
Subiram para o quarto de James. O repórter
mostrava-se cético, descrente. O fotógrafo, ainda
jovem, tinha muita curiosidade quanto ao assunto.
Mas, tanto o jornalista quanto o fotógrafo
comportavam-se de maneira polida e educada.
James lembrou-se de como Kilvan o instruíra na
abertura, após passarem trinta anos.
Abriu a caixa. Dentro havia um pequeno
pergaminho. O repórter anotava tudo num
caderninho. O fotógrafo batia inúmeras fotos em
sequência. James retirou o pergaminho, que era
uma pequena folha. Estava escrita dos dois
lados, nas duas únicas páginas. Os três homens
leram:
GÊNESIS
CAPÍTULO PRIMEIRO
No princípio, Deus criou os Céus e o Planeta
Éden. ... criou o homem edenita à sua imagem,
macho e fêmea os criou... e os abençoou e disselhes...
multiplicai-vos...
Os homens continuaram lendo e ficaram
espantados, intrigados, quando chegaram no
seguinte trecho:
...e por todas as partes do planeta, o
homem edenita pode andar, mas somente na
denominada ÁREA PROIBIDA, para que não
morra, edenita não deve entrar.
E aí, logo depois, terminou toda a escrita
do pergaminho. Foram só duas páginas, apenas
uma folha, só dois curtíssimos capítulos. Isto era
tudo, todo o Livro. Ora, era o LIVRO SAGRADO
DO PLANETA DOS ALQUIMISTAS!
Os homens se entreolharam. O fotógrafo
estava sem saber o que dizer. James, pensativo.
O repórter começou a gargalhar. Olhando para o
fotógrafo, disse:
- O senhor James usou um mestre em
artes gráficas. Encontrou os serviços de um bom
tipógrafo.
O fotógrafo continuou a disparar os flashes
de sua máquina. O repórter fazia ecoar
gargalhadas por todo o asilo. James estava
suando...não entendia. O repórter olhou apenas
para o velho.
- Senhor James. Não imagina que eu seja
tolo, imagina? Pensa que eu vou crer nesta
história absurda? Claro que eu só posso concluir
que o senhor mandou confeccionar isto,
encomendou-o a um mestre em artes gráficas!
Isto é apenas uma cópia - e bem deturpada - do
Gênesis da Terra. Uma cópia dos capítulos
primeiro e segundo. O senhor teve apenas o
cuidado, a boa idéia, de trocar os nomes dos
planetas e algumas coisas mais. Aliás, esta tal
ÁREA PROIBIDA, como o senhor forjou, nada
mais é do que uma adaptação grosseira e sutil,
hábil, da história da antiga fruta proibida da Terra.
Uma história tão conhecida, senhor James!
O idoso permanecia imóvel, pensativo. Não
tirava os olhos do pergaminho. Parecia que nem
ouvia o que o repórter dizia. O jornalista
continuou:
- O senhor já é muito idoso. Nessa idade, o
que pretende com essas afirmações enganosas?
Mude de idéia, não faça mais isso. É ridículo. E,
veja bem, em respeito ao senhor, desta vez, não
vou comentar o caso com ninguém, não vou
publicar nada.
O repórter não conseguia atingir James
com suas palavras. Mas o raciocínio do velho
despertou imediatamente. Com um ar de
surpresa e com a face de quem havia encontrado
o maior dos tesouros, pulou, bateu com o punho
fortemente na mesa. O repórter e o fotógrafo
saíram de perto, assustados.
O velho gritou:
- Então foi isso. Foi isso! Os edenitas não
entraram na ÁREA PROIBIDA. Este é o “elixir” da
infindável vida. A simbologia que se traduz na
fórmula da vida infindável, no pergaminho,
resume-se toda em OBEDIÊNCIA AO CRIADOR!
E, já que os edenitas obedeceram, então, em
consequência, nunca morreram! E, assim, o Livro
Sagrado deles nunca precisou ter sequência. Não
houve motivo para se escrever mais de mil
páginas como a Bíblia da Terra. Lá, apenas duas
páginas bastaram e tudo se resumiu naquilo.
Parou ali. Claro!
O repórter balançou a cabeça, não
entendendo nada. Chamou o fotógrafo. O velho
parecia nem notar ou se incomodar mais com a
presença dos dois. O jornalista disse ao
companheiro de serviço:
- Vamos, ele “pirou”, está “pirado”.
Saíram. Correram.
James, com os olhos fixos no pergaminho
e com a mente viajando bem alto, falava até
sozinho, traduzindo todos os seus pensamentos.
Com o barulho ocorrido, e a pedido do
jornalista, dois enfermeiros entraram rapidamente
no quarto e colocaram uma camisa de força no
idoso a muito custo, pois o velho esperneava...
66
Foi naquele momento que um despertador
tocou... tocou muito, para acordar alguém que
tinha o sono pesado. Esfregando os olhos,
assustado, um jovem de vinte e dois anos anos,
acordou. ERA JAMES...UM MOÇO. TINHA
SONHADO POR TODA A NOITE, TUDO
AQUILO! Ao seu lado, num banquinho, perto da
cama, havia dois livros. Um era uma Bíblia. O
outro, um livro chamado “Histórico da Alquimia”.
O moço James, deitado, fitando o teto,
lembrou-se: lera muito naqueles dois livros antes
de, bem tarde, adormecer.
Concluiu: ali estava a explicação para ter
sonhado, pois o sonho pode ser estimulado pelo
que o cérebro guarda das atividades diárias. Por
exemplo, pode ser estimulado pela leitura de um
livro. E ele lera, antes de dormir, “O Histórico da
Alquimia”. Observou a Bíblia que estava ao seu
lado, em cuja contracapa havia uma dedicação,
toda especial para ele. Lembrou-se de ter lido,
também, muito a Bíblia antes de dormir e, ainda,
a dedicação que dizia:
“James, meu prezado colega de serviço.
Queira aceitar de sua amiga, este modesto
presente. É uma Bíblia.
Se você a ler, vai entender do Gênesis ao
Apocalipse que, na Terra, a vida que o homem
perdeu, poderá ser recuperada, e você poderá
viver em juventude, eternamente. Por exemplo,
no Apocalipse, o profeta escreveu:
‘... E eu vi... uma nova Terra...E Deus
enxugará dos olhos deles ( dos olhos dos
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homens) toda lágrima, e não haverá mais a
morte, nem pranto, nem clamor, nem dor... Eis
que faço novas todas as coisas...’
James, meu caro, pense bem nisso.”
Assinado, estava um nome que há certo
tempo o moço não pensara mais nele:
LYVIA
Tratava-se de uma antiga colega que havia
trabalhado na mesma empresa que ele, há algum
tempo. Agora, era possível o moço entender por
que motivo os profetas tiveram que escrever mais
de mil páginas, além do capítulo segundo do
Gênesis da Terra.
Ele sorriu. Levantou-se e ligou o rádio.
Ouviu a voz de Raul Seixas. A música era a linda,
Ouro de Tolo, antiga, gravada bem depois dos
meados do século XX. Nela, Raul, o “Einstein da
canção brasileira”, mostrava que por mais que o
homem consiga na vida, como um emprego muito
bem remunerado, o carro do ano, uma casa
caríssima e todo o sucesso que almeja junto com
uma unida família, mesmo assim, tudo é como o
ouro de tolo. Pois sempre ficará um vazio, um
vazio depressivo, parecendo faltar alguma coisa
na existência. E o que é que falta na química
desse ouro que o homem busca? James
imaginou, lembrou-se de umas frases do Gênesis
da Terra que diziam ao primeiro homem:
“...E Deus deu esta ordem ao homem: De
toda árvore do jardim comerás livremente, mas da
árvore do conhecimento do que bom e do que é
mau, dela não comerás; porque no dia em que
dela comeres, certamente morrerás.”
E James, pensou:
“Os terrestres desobedeceram a lei! Isso,
para os habitantes da Terra era uma lei...como a
lei da área proibida no planeta do meu sonho, na
qual os edenitas não entraram.” - e concluiu o
seu pensamento: “Agora eu sei o que falta ao
homem: falta algo maior na vida do homem, o
verdadeiro tesouro: FALTA VIDA ETERNA, UMA
ETERNA E JOVIAL VIDA, E QUE SÓ PODERÁ
SER OBTIDA EM OBEDIÊNCIA AO CRIADOR, O
DEUS DO AMOR”.
James tomou o café da manhã e saiu.
Pela rua, ia se lembrando da colega que
nunca mais vira. Tentaria encontrá-la, pois agora
imaginava: “Lyvia conhece a fórmula da eterna
juventude - que os alquimistas da Terra nunca
descobriram. Em sonho a busquei, tão distante,
naquele maravilhoso planeta, o incrível Planeta
dos Alquimistas. Mas, agora, sei: a fórmula está
aqui na Terra, bem no nosso meio.”
E James, o moço, ia cantarolando pelas
ruas a canção OURO DE TOLO. Partiu, daquele
dia em diante, em busca do maior de seus
sonhos...
E o encontrou!
Colocou, então, o pé ao primeiro passo na
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